| O panorama da economia mundial nos próximos anos aponta necessariamente para políticas econômicas fortemente marcadas pela saída fiscalista, com drásticos cortes de gastos públicos. Dada a situação a que chegaram vários países, principalmente os desenvolvidos, não parece haver outro jeito. Como convencer um país com déficit orçamentário de 12% ou 13% que a saída é expandir os seus gastos? É verdade que o Brasil e outros emergentes tentaram mudar o tom da reunião do G-20 realizada nos dias 25 a 27 de junho em Toronto, Canadá. Por conta dos esforços desses países, a declaração final oficial da reunião de Toronto teve uma mudança de ênfase, com maior destaque para o crescimento, e menor no ajuste fiscal. O referido comunicado define que os países devem reduzir seus déficits pela metade até 2013 e buscar quedas nas suas dívidas públicas, somente a partir de 2016.
Para o Brasil essa decisão, mesmo que não impeça alguns países da zona do euro de fazerem apertos fiscais pesados agora, foi importante do ponto de vista comercial, já que a Europa absorve quase um quarto das exportações brasileiras (em 2009 a zona do euro comprou 22,2% das exportações nacionais, menor nível na última década). De qualquer forma, em face da gravidade da crise e do inevitável ajuste fiscal que aquela região terá que realizar, não será uma mudança de ênfase na declaração do documento final da reunião de Toronto, que irá evitar a acentuação da perda do mercado europeu nos próximos anos, por parte do Brasil. É bastante possível, inclusive, que a menor demanda da Europa leve a uma queda global dos preços dos produtos exportados pelo País.
As turbulências na Europa complicam um pouco, portanto, a situação externa do Brasil, que projeta um déficit expressivo em transações correntes neste ano. A anualização dos números do primeiro quadrimestre (déficit de cerca de US$ 17 bilhões) levaria a um déficit estimado superior a 3% do PIB em 2010. Parte do déficit deste ano é explicada pelas remessas de dividendos, lucros e juros ao exterior por parte das empresas operando no Brasil, o que reforça um sinal amarelo na área externa. No entanto, além dos efeitos sobre a balança comercial (que requerem medidas de caráter estrutural) os efeitos imediatos da crise sobre a economia brasileira são discretos. Se a situação se agravar muito, afetando o crédito, o conjunto de medidas usadas em 2008 pode voltar a ser usado. Parte dos depósitos compulsórios pode ser liberada, os juros podem ser reduzidos, o governo pode aumentar os seus gastos, elevar o crédito nos bancos públicos e mesmo disponibilizar parte das reservas cambiais, que hoje estão em US$ 253 bilhões, para financiamento das exportações. |